terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Quatro poemas da juventude de Dalton Trevisan




MODERNISMO

A poesia não serve mais para nós...
Nesta época crua — tudo é prosaísmo
E ninguém admite doces ilusões,
E não quer — jamais! — saber de lirismo.

(Mas só de vergonha; tudo só vergonha
De falar em virgem... flores... lua... pranto...
Porque a alma de todos nós, os realistas,
Ainda é de mil oitocentos e tanto).

Hoje — a evolução! — só se escreve besteira
E quanto pior: mais genial, mais perfeito!
Agora a moda é a do subjetivismo
Que nos manda ao invés de seio escrever peito...

Poetas tristonhos, de negros cabelos, 
Olhos sonhadores, faces desmaiadas,
Roupa  no padrão do corvo ermo de Poe,
Poetas que (o! náuseas...) escreveis baladas,

Morte para todos vós, os passadistas
Do spleen, da taberna — e ainda mais — do verso...
Oh! vós que exigíeis ritmo, metro, estrofe,
E que só rimavam verso com disperso...

Morram, morram! A época é do pau-brasil,
Do samba, da farra e carnaval (velório
Depois...), de chantage, do gangster, do Blitzkrieg
— E onde vão os tísicos do sanatório! 

* Arquivo da revista Gran-fina


A MORTE E A VIDA 

“A morte, meus irmãos (falou o primeiro)
É treva; a vida é luz, só o fagueiro...”
Este era dos cinco homens, uno poeta.
“A vida... m...! A morte... não sei a meta”.

Diz descrente o segundo companheiro.
Exclamou aí então, deles o terceiro:
“Viver... Morrer... Por que? A curva e a reta?”

“Calai-vos, calai-vos, nobres ateus”
— O quarto tinha fé, que veio a dizer
“A morte me revela: a vida é Deus!”

E o silêncio fez-se no escuro horto.
Nada dizia somente o último ser.
Daqueles cinco amigos, era o morto...

* Arquivo Diário da Tarde

LINDA

Nós éramos pequenos. Sob o manto
Da inocência, voltou-me esta lembrança.
No jardim solitário, tonto, enquanto
Falavas, eu beijei-te a bela trança.

Ficaste bem zangada. E logo o pranto
Brotou numa graciosa e quieta dança, 
Dos teus olhos. O efeito fora tanto, 
Que irada, devolveste-me a aliança...

Não chores! — eu pedi, com medo quase
Que tua mãe, hostil, nos surpreendesse
Com: Que coisa, meu Deus!... — a eterna frase.

Feia! — chamei-te. Então, com grande pejo,
Pediste-me qual santa, em santa prece,
Que mil beijos te desse — ou mais um beijo...

* Arquivo Revista Careta


QUADRO REALISTA

No sórdido ambiente — os repletos cafés — 
Negra multidão tonta pelas bebidas,
Pulula nervosa, ignorante, suspeita,
Derramada pelas mesas encardidas...

Sobre o mundo lívido de fracassados,
Imagem cruel de mulher, se intromete
Entre os elogios e feras diatribes,
No seu avental sujo — uma garçonete.

Servindo o café e o leite sempre morno,
Ouve uma proposta esperada, sombria,
E arreganha a boca seus dentes podres
— Contente por não ter perdido este dia...

* Arquivo da revista Gran-fina

•
Exímio contista, Dalton Trevisan fez experiências no verso, ainda jovem, colaborando com jornais e revistas diversos dentro e fora de sua cidade natal. Ele nasceu em 14 de junho de 1915, em Curitiba. Recebeu o Prêmio Camões e Prêmio Machado de Assis, dois dos mais importantes reconhecimentos em língua portuguesa. É autor de, entre outros O vampiro de Curitiba (1965), A polaquinha (1985) e O beijo na nuca (2014). Trevisan morreu no dia 9 de dezembro de 2024.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Dois poemas de Conceição Lima




Esta viagem

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

Trespassei o aço das certezas.
Heranças, devorei-as.

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia
Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

Ao encontro da linguagem da tribo azul
cada passo me afasta de um rio sagrado.

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:
a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.


Antes do poema 

Súbito chegaste 
quando falsos deuses subornavam 
o tempo. 
Chegaste para despedir 
a insónia e o frio 
Chegaste sem aviso 
quando a estrada se abria 
como um rio 
Chegaste para resgatar 
sem demora o princípio 

Grave o silêncio rodeia o teu corpo h
ostil o silêncio agarra teu corpo 
Mas já tomaste horas e caminhos 
já venceste matos e abismos 
já a espessura do obô 
resplandece em tua testa. 

E não bastam pombas em demência 
no teu rosto 
Não bastam consciências soluçantes 
em teu rasto 
não basta o delírio das lágrimas libertas. 

Eu cantarei em pranto 
teu regresso sem idade 
teu retorno do exílio na saudade 
cantarei sobre a terra 
teu destino de rebelde 

Para te saudar no mar e no palmar 
na manhã do canto sem represas 
cantarei a praia lisa e o pomar. 

Direi teu nome e tu serás.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Três poemas de Ida Vitale




FORTUNA

Anos a fio usufruir do erro
e de sua emenda,
ter podido falar, caminhar livre,
não existir mutilada,
não entrar, ou sim, em igrejas,
ler, ouvir a música querida,
ser na noite um ser como no dia.

Não ser casada por negócio,
medida em cabras,
padecer o governo de parentes
ou legal lapidação.
Não desfilar nunca mais
e não admitir palavras
que ponham no sangue
limalhas de ferro.
Descobrir por ti mesma
outro ser não previsto
na ponte do olhar.

Ser humano e mulher, nem mais nem menos.


A PALAVRA INFINITO

A palavra infinito é infinita,
a palavra mistério é misteriosa.
Ambas são infinitas, misteriosas.
Sílaba a sílaba tentas convocá-las
sem que uma luz proclame seu domínio,
uma sombra assinale a que distância delas
está a opacidade em que te moves.
Vão a algum ponto do clarão, se aninham,
assim que as abandonas livres no ar
esperando que uma asa inexplicável 
te leve até seu voo.

É mais que seu sabor o gosto desta vida?


O SILÊNCIO

Peço silêncio
e é pedir a fruta
na flor de verão,
um tanque com peixes
ao abrir-se a chuva.
É sinistro esperar?
Arderá uma granada
de inesperado amor
e sua paz crescerá,
não um pântano morto,
não dilúvio de gelo,
epitáfio caído,
mas um presente doce,
um beijo de boa noite,
resplendor de bom filho,
lâmpada carinhosa.

•
 
Ida Vitale nasceu no dia 2 de novembro de 1923, em Montevidéu. É poeta, tradutora, ensaísta e crítica literária integrante da chamada Geração de 45 no seu país natal. Por causa da ditadura militar exilou-se no México entre 1974 e 1984; ainda retornou ao Uruguai e em 1989 transferiu-se para os Estados Unidos, onde viveu até recentemente. Desde 2009, quando recebeu o Prêmio Octávio Paz, acumulou uma variedade de reconhecimentos, como Reina Sofía de Poesia Iberoamericana (2015) e o Prêmio Cervantes (2018). Entre os livros que publicou em poesia estão títulos como La luz de esta memoria (1949), Palabra dada (1953), Cada uno en su noche (1960), Oidor andante (1972), Jardín de sílice (1980), Parvo reino (1984), Sueños de la constancia (1988) e Procura de lo imposible (1998).
 
* Traduções de Heloisa Jahn. 

sábado, 7 de outubro de 2023

Dois poemas de Jon Fosse




ALGO SOBRE O ATOR

no que se move
como a vida
sempre em órbita
tem calma
e peso
como a própria vida
é pesada Para alguns
a vida é muito leve
e ao mesmo tempo pesada
e estes escapam do que acontece
e ali ficam
trêmulos
tímidos
sem saber o que dizer
não têm nada a dizer
e portanto algo deve ser dito E seguem em frente
a passos leves e retos como o vento
em frente vão
e então param
com o peso de si mesmos
à luz alheia
enquanto a vergonha
esmaece
e se eleva como um anjo guardião

Então as asas do anjo se abrem
sobre eles e os abraçam

E tudo está dito


TEM UMA PESSOA AQUI

Tem uma pessoa aqui
que então se vai
num vento
que some
se entranha
e esbarra nos movimentos da rocha
e se torna sentido
numa sempre nova unidade
daquilo que é
e daquilo que não é
numa quietude
em que o vento
vira vento
em que o sentido
vira sentido
em movimentos perdidos
de tudo que já foi
e ao mesmo tempo vem
de uma origem
em que o som carregava o sentido
antes de a palavra se dividir
e desde então jamais nos deixar
Mas ela está
em todo o passado e em todo o futuro
e está
em algo
que não existe
no limite extremo
entre aquilo que foi
e aquilo que virá a ser
É infinita e sem distância
no mesmo movimento
Clareia
e desaparece
e permanece
ao desaparecer
E reluz
em seu escuro
enquanto fala
do seu silêncio
Em lugar algum
Em toda parte
Está próximo
Está longe
e corpo e alma se encontram
num só
que é pequeno
e tão grande
como tudo que é
tão pequeno quanto nada
e onde está toda a sabedoria
e coisa alguma sabe
no seu mais íntimo
onde nada é separado
e ao mesmo tempo é ela mesma e todo o resto
no dividir
que não é dividido
no fronteiriço infinito Assim a deixo ir
numa presença óbvia
num movimento disperso
vagueando pelo dia
onde árvore é árvore
onde pedra é pedra
onde vento é vento
e onde palavras são uma unidade insondável
de tudo que já foi
de tudo que some
e assim permanece
como palavras de alento


•
Jon Fosse nasceu em Haugesund, Noruega, em 1959. Destacado dramaturgo, ele estreou na literatura como romancista, mas tem publicado conto, novela, poesia e ensaio, reunidos em mais de seis dezenas de livros que recebeu uma variedade de prêmios, incluindo o Prêmio Nobel de Literatura em 2023.

* Traduções de Leonardo Pinto Silva oferecidas aos leitores pela editora Fósforo.


terça-feira, 22 de agosto de 2023

Álvaro Mutis



A MORTE

Não inventemos suas águas. Nem intentemos inabilmente adivinhar seus veios deliciosos, seus escondidos remansos. Não adianta intimidades com ela. Devolvâmo-la à sua antiga e verdadeira presença. Venerêmo-la com as preces de outrora e tornarão a conhecer-se suas intrincadas rotas, voltará a encantar-nos sua espessa maranha de cidades cegas onde o silêncio derrama sua líquida essência. As grandes aves regressarão a presidir sobre nossas cabeças e suas sombras fugazes apagarão suavemente nossos olhos. Desnudo o rosto, cingida a pele aos ossos fundamentais que sustentaram as feições, a confiança na morte volverá para alegrar nossos dias.


AS VIAGENS

É preciso lançar-nos à descoberta de novas cidades. Generosas raças nos esperam. Os pigmeus meticulosos. Os sebentos e imberbes índios da selva, assexuados e lisos como as serpentes dos pântanos. Os habitantes das mais altas mesetas do mundo, assombrados ante o tremor das neves. Os frágeis habitantes das geladas extensões. Os condutores de rebanhos. Os que há séculos vivem na metade do mar e que ninguém conhece porque viajam sempre em direção contrária à nossa. Deles depende a última gota de esplendor. 
Ainda estão por descobrir importantes regiões da terra: os grandes tubos por onde respira o oceano, as praias onde morrem os rios que não têm destino, os bosques onde nasce a madeira de que é feita a garganta dos grilos, o lugar onde vão morrer as borboletas escuras, de grandes asas lanudas, com o acre matiz da erva seca do pecado.
Buscar e inventar de novo. Ainda é tempo. Bem pouco, é verdade, mas é preciso aproveitá-lo.


O DESEJO

Temos que inventar uma nova solidão para o desejo. Uma enorme solidão de estreitas margens onde se espalhe à vontade o rouco estrépito do desejo. Abramos, novamente, todas as veias do prazer. Que jorrem seus altos esguichos não importa aonde. Nada foi feito ainda. Mal tínhamos começado a andar quando alguém parou para arranjar-se as vestes e todos paramos juntos. Sigamos a marcha. Há leitos secos por onde ainda podem viajar águas magníficas.
Recordai os animais de que falávamos. Podem ajudar-nos antes que seja tarde e volte a charanga a enturvar o céu com sua música estridente. 


CADA POEMA

Cada poema um pássaro que foge
da região marcada pela praga.
Cada poema uma roupagem de morte
pelas ruas e praças inundadas
na cera mortuária dos vencidos.
Cada poema um passo para a morte,
uma falsa moeda de resgate,
tiro certeiro no meio da noite
perfurando as pontes sobre o rio
cujas águas dormidas perambulam
dos velhos bairros para as cercanias
onde o dia prepara suas fogueiras.
Cada poema um rígido contato
do que repousa na pedra dos morgues,
ávido anzol que sôfrego percorre
o liso limo das frias sepulturas.
Cada poema um náufrago desejo,
ranger de mastros, estalar de enxárcias
no rude andaime que sustenta a vida.
Cada poema um o estrondo do derrame,
sobre o gelado ronco do oceano,
da branca estrutura do velame.
Cada poema invadindo e esgarçando
a triste teia de aranha do tédio.
Cada poema, de um cego sentinela,
o santo e senha de sua desventura
num grito à noite escura e sem resposta.
Água de sonho, nascente de cinza,
pedra porosa de entre matadouros,
tronco encoberto pelas sempre-vivas,
metal que dobra pelos condenados,
óleo de extrema-unção de duplo gume, 
sudário cotidiano do poeta,
cada poema esparge sobre o mundo
a amarga semente da agonia.

•
Álvaro Mutis nasceu em Bogotá em 1923. Apenas dois anos depois, a família mudou-se para Bruxelas, onde fez toda suas primeiras letras, educando-se em francês. O retorno para a Colômbia acontece em 1939 e em 1942 começa a trabalhar no rádio, passando para o periódico Vida como chefe de redação. Sua estreia na literatura é com La balanza, livro publicado com Carlos Patiño, em 1948. Quatro anos a seguir, sai Los elementos del desastre, ocasião quando já atuava na publicidade, mais tarde nas relações públicas, funções que o levaram a ir viver no México. Antes da prisão de um ano e meio, ainda publicou Reseña de los hospitales de ultramar e na saída do cárcere havia escrito Cuatro relatos, Los trabajos perdidos e Diario de Lecumberri. A vida dedicada à poesia só o alcançaria depois de viajar a América Latina como funcionário de distribuidoras estadunidenses para a venda séries televisivas. Alguns dos vários reconhecimentos recebidos por sua obra foram os prêmios Príncipe de Astúrias e Rainha Sofía de Poesia. Álvaro Mutis morreu na Cidade do México em 2013.


* Traduções de Geraldo Holanda Cavalcanti   

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Três poemas de Hans Magnus Enzensberger




CONVIDADOS
 
Os que vêm sempre atrasados
Os que no último minuto dizem que não dá para vir
Os que passam só um instante a espreitar
Os que foram convidados em retribuição
Os que se arreliam por não terem sido convidados
Os que não foram convidados, mas lá estão à porta
Os que trazem a lista completa da dieta
Os que vêm com as plantas de sala, os bebés e
             o São Bernardo
Os vizinhos que não conseguem dormir com a música
Os que contam todo o tempo anedotas de judeus
Os que bebem só água mineral
Os que vêm já com os olhos a fechar-se
Os que não param de se fotografar uns aos outros
Os que fumam só na varanda
Os que sabem sempre tudo o que há e entre quem e quem
Os que dizem enfaticamente mas que isto fique entre nós
Os que beberam já whiskey a mais
Os que ainda têm de dar um pulinho a outra
Os que ficam até depois de já todos terem saído
Os que são bem-vindos mesmo sem antes terem telefonado
Os que é pena não estarem, porque estão debaixo da terra
 
 
PECADOS DE INCUMPRIMENTO
 
Sim é verdade, faltei sem motivo.
Na mais premente das aflições
não acorri logo.
Noites de amor extraviadas,
no jogo do entra e sai com a bola uma desgraça,
e nunca aprendi a nadar como deve ser.
 
Sim é verdade, esquivei-me sempre
a lutar até ao último cartucho.
Não dei um beijo
na mão fraterna do vagabundo,
e descurei a rega
das begónias dos vizinhos.
 
Caída no esquecimento a confissão,
intimidado à ideia
de melhorar o mundo,
nem uma vez subi e desci quando devia,
e não tomei as pastilhas
três vezes por dia.
 
Sim é verdade, abandonei
a ideia de matar gente. Sim,
não telefonei.
Para já, prescindi
até de morrer.
Se puderem, desculpem.
 
Ou deixem lá.
 
 
DESTINATÁRIO DESCONHECIDO —
RETOUR À L’EXPÉDITEUR
 
Muito obrigado pelas nuvens.
Muito obrigado pelo cravo bem temperado
e, por que não, pelas botas de Inferno forradas.
Muito obrigado pelo meu cérebro singular
e pelos outros órgãos todos que não estão à vista,
pelo ar, e naturalmente pelo vinho de Bordéus.
Muito agradecido por não se me acabar o isqueiro,
e os agudos anseios, e a piedade, a incessante piedade.
Muito obrigado pelas quatro estações,
pelo algarismo e e pela cafeína,
e claro pelos morangos no prato
pintado por Chardin, e também pelo sono,
pelo sono muito especialmente,
e, não vá eu esquecer-me,
igualmente pelo início e pelo fim
e pelos minutos de permeio,
um obrigado muito encarecido,
e por que não também pelas toupeiras lá fora no jardim.
 
•
Hans Magnus Enzensberger nasceu na Baviera a 11 de novembro de 1929. Estudou Literatura e Filosofia em várias universidades europeias, incluindo Hamburgo e Sorbonne. Entre 1965 e 1975 foi parte no Grupo 47, período quando criou e dirigiu a revista Kursbuch e a série literária Die andere Bibliothek. Autor de extensa obra, escreveu ensaio, romance, novela, crônica e poesia, gênero no qual estreou em 1957 com Defendendo os lobos. Em 2002 foi premiado com o Príncipe das Astúrias. Morreu no dia 24 de novembro de 2022 em Munique.


* Tradução de Alberto Pimenta

terça-feira, 17 de maio de 2022

Três poemas de Miyó Vestrini

 


COISA POUCA NA VERDADE
 
Não é muito o que tenho para te dizer:
                                                   quando falo dele, estremeço.
                                                   Coisa pouca,
 
                                                                  na verdade.
 
 
A DOR  
 
Dobrei as suas camisas com todo o cuidado
e esvaziei a gaveta da mesinha de cabeceira.
Dada a dimensão da minha dor,
li Marguerite Duras,
que avessa e doce
tecia um xaile para o seu amado.
Ao quinto dia,
Abri as cortinas.
A luz caiu sobre a coberta manchada de gordura,
o chão cheio de restos,
a moldura escamada da porta.
Tanta dor,
por coisas tão feias.
Olhei uma vez mais a sua cara de fuinha
e atirei tudo pela conduta do lixo abaixo.
A vizinha,
alarmada com tal volume de lixo,
quis saber se estava tudo bem comigo.
Dói, disse-lhe eu.
Na minha caixa de correio, um bilhete anónimo:
“quem tem um amor
que dele cuide
que dele cuide
e não suje a conduta do lixo da comunidade.”
 
 
A HORA DOS PROSTITUTOS E CÃES NÉSCIOS
 
A esta hora
não se sabe o que fazer

       e é sempre a esta hora, a hora dos prostitutos e cães
       néscios que eu relembro. Todos os dias, este tempo
       perdido, sabes, a cara entre as mãos, as pernas enco-
       lhidas, a viva imagem da dor na tarde lerda. Imóvel
       entre escombros, imune aos desastres, não podia ser
       de outra forma.
 
E é esta mesma hora
                               a de hoje
                                               a que virá todos os dias
que me fode.

 
•

Miyó Vestrini (Marie-José Fauvelle Ripert) nasceu em Nimes, França a 27 de abril de 1938. Veio com a família ainda criança morar nos Andes venezuelanos, onde passou o resto da sua infância. Ainda jovem passou a se dedicar ao jornalismo cultural e integrou vários grupos de escritores; trabalhou para a imprensa venezuelana na Itália, conduziu programas de rádio, dirigiu cadernos de cultura em jornais como El Nacional e escreveu prosa e poesia, gênero este no qual se destaca como importante nome da literatura de vanguarda em língua espanhola. Miyó suicidou-se a 29 de novembro de 1991, em Caracas. Deixou livros como Las historias de Giovanna (1971), El inverno próximo (1975), Pocas virtudes (1986), Valiente ciudadano (1994) e Es una buena máquina (2014).  
 
* Traduções de Miguel Cardoso.

terça-feira, 26 de abril de 2022

Dois poemas de Margaret Atwood


 

Primavera outra vez, como irei suportar
as agulhas que ela lança contra
a terra, contra a minha cabeça,
habituadas que estamos ambas à escuridão
 
A neve no solo escuro e
a lagarta esmagada
a relva feita líquido colorido
 
O inverno desmorona-se
em pregas frouxas em torno
dos meus pés / folhas ainda ausentes / flácidas
 
Carnudos lilases em botão ameaçam
abrir mas eu
contenho-me
 
Não estou pronta / ajuda-me
o que quero de ti é
luar macio de
vento, longos cabelos de água
 
 
*
Porque tu não estás nunca aqui
mas sempre ali, esqueço-me
não de ti mas da tua aparência
 
Vagueias rua abaixo
à chuva, o teu rosto
dissolve-se, muda de forma, as suas cores
escorrem e misturam-se
 
As minhas paredes absorvem-
-te, respiram-te de
novo, tudo reiniciais-
-te, não te reconheço
 
Ficas deitado na cama
a olhar-me a olhar-
-te, nunca nos haveremos de conhecer
tão bem um ao outro
 
como agora
 
•
Margaret Atwood nasceu a 18 de novembro de 1939, em Ottawa, Canadá. Reconhecida com romances de natureza distópica, como O conto da aia, sua Magnum opus, é também autora de ensaios, contos e poemas. Deste gênero, publicou mais de uma dezena de livros, entre eles A porta, publicado no Brasil em 2013 com tradução de Adriana Lisboa. Os dois poemas apresentados aqui são de outro livro da autora traduzido em Portugal, Políticas de poder.
 
* Traduções de Ana Luísa Amaral.   
 

terça-feira, 1 de março de 2022

Três poemas de Pier Paolo Pasolini




LITANIAS DO JOVEM BONITO
 
I
A cigarra chama o inverno
— quando a cigarra canta
tudo no mundo clareia e para.
 
Lá o céu é só sereno
— se vens aqui o que encontras?
Chuva, nuvens, choro do inferno.
 
II
Eu sou o belo jovem
que chora todo o dia,
te peço, meu Jesus,
não me deixes morrer.
 
Jesus, Jesus, Jesus.
 
Eu sou o belo jovem
que sorri todo o dia,
te peço, meu Jesus,
ah, me deixes morrer.
 
Jesus, Jesus, Jesus.
 
III
Hoje é domingo,
amanhã se vai morrer,
hoje me visto
de seda e de amor.
 
Hoje é domingo,
nos campos crianças
de frescos pés saltam
leves nos sapatos.
 
Cantando ao espelho,
cantando me penteio.
Ri em meu olho
o Diabo pecador.
 
Tocai, sinos meus,
levai-o para trás!
“Tocamos, mas tu, o que vês
cantando pelos campos?”
 
Vejo os sóis
de mortas estacoes,
vejo a chuva,
as folhas, os grilos.
 
Vejo meu corpo
de quando fui menino,
os tristes domingos,
a vida perdida.
 
“Hoje te vestem
a seda e o amor,
hoje é domingo
amanhã, a morte.”
 
 
COMUNICADO À ANSA (RECIFE)
 
Como é notícia de jornal, começa
com um pouso de emergência no Recife.
Aqui chove; no aeroporto em construção, passando
em frente a um grupo de operários que trabalham, olhos
se erguem para os passageiros
É assim que o Brasil me saúda
E retribuo a saudação com meu coração burguês
que já sabe o que vai receber por aquilo que dá.
Nestes bancos desolados se espera um novo voo, de emergência,
Não há nada de novo: eu sei de que fala
O corpo lavado e a melancolia
Minha companheira com sua ansiedade, no ar tépido da chuva,
e sua sede de graça: cegada para sempre —
este peso que nós burgueses trazemos no peito
por tudo o que não sabemos e a necessidade de elogios,
de modo que a vida nos cobre como uma veste úmida e suja,
e os raros momentos de felicidade logo se tornam lembranças
de que nos vangloriamos; e o peso aumenta
as feridas de um insucesso nos obrigam a calmas consoladoras,
a cômicos dar de ombros
a hilaridades esnobes,
ali sentados naqueles bancos desolados do Recife
 
 
VERSOS FINOS COMO TRAÇOS DE CHUVA
 
É preciso condenar
severamente quem
crê nos bons sentimentos
e na inocência.
 
É preciso condenar
com igual severidade quem
ama o subproletariado
sem consciência de classe.
 
É preciso condenar
com a máxima severidade
quem ouvi em si e expressa
sentimentos obscuros e escandalosos.
 
Estas palavras de condenação
começaram a ressoar
no coração dos Anos Cinquenta
e continuam até hoje.
 
Entretanto a inocência,
que efetivamente havia,
começou a perder-se
em abjuras, corrupções e neuroses.
 
Entretanto o subproletariado,
que efetivamente existia,
terminou se transformando
em reserva da pequena burguesia.
 
Entretanto os sentimos
que eram por natureza obscuros
foram todos investidos
no lamento das ocasiões perdidas.
 
Naturalmente, quem condenava
não se deu conta de tudo isso:
e continua rindo da inocência,
negligenciando o subproletariado
 
e declarando sentimentos reacionários.
Continua indo da casa
pro escritório, do escritório pra casa,
ou ensinando literatura:
 
está feliz com o pregressismo
que lhe faz parecer sagrado
o dever de ensinar aos domésticos
o alfabeto das escolas burguesas.
 
Está feliz com o laicismo
que considera é mais que natural
que os pobres tenham casa,
casa e tudo o mais.
 
Está feliz com a racionalidade
que o faz praticar um antifascismo
gratificante, elevado
e sobretudo muito popular.
 
Que tudo isto seja banal
nem lhe passa de longe pela mente:
com efeito, que seja assim ou assado
não lhe dá nenhum proveito.
 
Aqui fala um Sócrates mísero e impotente
que sabe pensar e não filosofar,
mas que no entanto se orgulha
não só de ser conhecedor
 
(o mais exposto e esquecido)
das mudanças históricas, mas também
de nelas estar direta e
desesperadamente implicado.
 
•
Pier Paolo Pasolini nasceu a 5 de março de 1922 em Bolonha. Sua estreia na literatura acontece com a poesia, gênero que cultivará ao longo de sua carreira, marcada ainda pelo trabalho na prosa (ensaio, novela, romance), no teatro e nas artes plásticas, sobretudo no cinema. Foi brutalmente assassinado na madrugada do dia 1º para 2 de novembro em 1975, em Roma. 

* Traduções de Maurício Santana Dias
 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Quatro poemas de Julieta Barbara


 

DIA GARIMPO
 
Vestido limpo
Na água sabão
O azul caipira
Do céu burleta
Lavando o sol
Gosto de Alzira
De borboleta
Cheiro a amplidão
Pastava o gado
De girassol
Livre da canga
No capinzal
Papel colado
Flores de manga
Nuvens de sal
Suor bombacho
Trincando o céu
Alaga e alonga
A terra em cacho
Supina em baixo
Do meu chapéu
Gosto de Alzira
Sono araponga
 
 
VARIAÇÃO SOBRE O “PAI DO MATO”
 
No intervalo
Fomos festejar o bailarino
Que estava suando
Sem emoção
Disse que não estava nos seus bons dias
E queixou-se da casa vazia
Ah! — a casa estava vazia
 
Que diferença de atitude
Quando o teatro estava cheio
No intervalo
Fomos festejar o bailarino
Ele ficou emocionado
Disse que tinha a alma carregada de ritmos
Ah! sua alma estava carregada de ritmos
 
 
ADOLESCENTE

Um arrepio mal sentido no peito
Entre a garganta e o coração
Uma espécie de frio
Que devia descer pelas veias dos ombros
Enquanto o bafo de sua boca
Como um murmúrio
Palpasse minha cintura contraída
Que eu devia sentir
No enfraquecimento das pernas
Aconchegado no meu sexo indefeso
Nos bicos dos seios prometidos
Um arrepio mal sentido
Entre a garganta e o coração
Uma espécie de frio
Que devia passar como uma vibração
Do meu corpo para o espaço
E acender lantejoulas
E engolir a amplidão
Um arrepio mal sentido no peito
Entre a garganta e o coração
Uma espécie de frio
Que não teve arremessos
Minha cabeça é o prato de uma balança cheia de pesos
Em minhas mãos se debate
A certeza dos meus órgãos funcionando
Dos meus nervos funcionando
Um arrepio mal sentido
Entre a garganta e o coração
Uma espécie de frio
Sem ruído
Monoplano
Que atingiria o leito macio
Das montanhas brancas
Amontoadas nas nuvens
Um arrepio mal sentido
Entre a garganta e o coração
Uma espécie de frio
Que teve que morrer
Como morrem os fuzilados
Sabendo que vão morrer
Sentindo a prisão da parede por trás
O ódio pela frente
A cabeça como o prato de uma balança cheia de pesos
Como morrem os fuzilados
Sabendo que vão morrer
Um arrepio mal sentido
No peito
Entre a garganta e o coração
Uma espécie de frio
Gestando uma vida
Que se desdobraria em ondas de outras vidas
Se tornaria o mar
Engoliria todos os peixes
De lantejoulas
Minha cabeça é o prato de uma balança cheia de pesos
Entre a garganta e o coração
Um arrepio mal sentido
Uma espécie de frio
Eu quero a espada de fogo
Cavaleiro São Jorge
Eu quero a liberação
Salomé
Corta minha cabeça rente dos ombros
Meu corpo desarvorado
Alcançará o mar
Engolirá todos os peixes
De lantejoulas
Engolirá o espaço
Engolirá as estrelas
O céu de Cristo
Pregado numa cruz
E as lágrimas dos homens
 
 
A MORTE DO POETA
 
Duas coroas pisadas
Boiaram nas olheiras do caixão
Na sua carne lívida
O sol machucava
 
Cortando o choro literário das mulheres
Que o cadáver só conhecia de vista
Os oradores cuspiram a encomendação necrológica
No ventre da cova
Uma papoula desprendeu-se no meio dos vermes
“Foi poeta sonhou e amou na vida”
 
Para os olhos insensíveis
Das ilustrações
Os contornos mancharam desenhos
Massas próximas se distribuíram coloridas
Viam-se os dedos trançados sobre os ossos
As flores bordando a magreza humilhada
O enterro torcido sobre a morte
 
O cadáver exalou dores apodrecidas
 
Do cemitério
Nem uma cruz aflita
O único vestígio das sepulturas sem dono
Eram as chapas de alumínio
Que cabeceavam o sono eterno
Umas árvores sem nome
 
Iguais
Iguais
Iguais
Varavam no corpo nu de martírio
Seis pares de braços misericordiosos
“Foi poeta sonhou e amou na vida”
 
O sol exangue de seu estro sepultado
Vertia o último poente
As proporções da clemência
Ungiram a enormidade
Como uma papoula desprendida dos vermes
A poesia ilesa
Atingiu a aeronáutica
A sonda despencando
Os fios condutores
Dos caminhos cruzados
 
O lirismo sem voz
Voltou sob as patas do enterro capitalista
Esgotado o último disfarce
Quando a terra comeu para sempre a carne do poeta
 
Para aqueles que eram os esquecidos
Porque não sabiam ler
O pânico demorava o tempo
E crescia à medida que a cidade vinha ao seu encontro
 
Quiseram também ir no enterro rumoroso
Mas voltaram calados
Penetraram angustiados
Que não fora só de doença
 
Que não fora só de fome...
“Foi poeta sonhou e amou na vida”
Teriam eles a possibilidade
De aniquilar-se como o poeta?
 
Crescia o pânico
Quanto mais os homens esquecidos
Se apoderavam do pavor
Os animais pasmos
Pastavam
Nem diziam pelos olhos frios
De outra coisa se morre
A câmara lenta
Da angústia
Demorava a cidade
A sonda metrificada
 
Contrapunha no espaço
Hieróglifos
Contraponto de ritmos livres
 
De outra coisa se morre
Diziam os surpreendidos
Pelos passos enormes
 
•
Julieta Barbara nasceu em 1908 em Piracicaba, interior de São Paulo. Destacou-se como poeta com a publicação de seu único livro, Dia garimpo, em 1939. Nas letras, Barbara Guerrini também se dedicou à crônica escrevendo para o jornal carioca A manhã em 1941. Também produziu no campo das artes plásticas — pintura e desenho; parte desse segundo interesse aparece exposto nas composições que acompanham seu livro. Julieta Barbara morreu em 2005.
 
 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Um poema inédito de Mario Quintana

 


CANÇÃO DO PRIMEIRO ANO*
 
Pelas estradas antigas
As horas vêm a cantar.
As horas são raparigas,
Entram na praça a dançar.
 
As horas são raparigas...
 
E a doce algazarra sua
De rua em rua se ouvia.
De casa em casa, na rua,
Uma janela se abria.
 
As horas são raparigas
Lindas de ouvir e de olhar.
 
As horas cantam cantigas
 
E eu vivo só de momentos,
Sou como as nuvens do céu...
Prendi a rosa dos ventos
Na fita do meu chapéu.
 
Uma por uma, as janelas
Se abriram de par em par.
As horas são raparigas...
Passam na rua a dançar.
 
Janela de minha vida
Aberta de par em par!
 
As horas cantam cantigas
 
E, de novo, sem lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Em tuas mãos distraídas...
 
 
Porto Alegre, 1/1/41

•

Mário Quintana nasceu a 30 de julho de 1906, em Alegrete, Rio Grande do Sul. Leitor exímio, foi autor de mais de uma centena de traduções, incluindo Honoré de Balzac, Marcel Proust, Virginia Woolf e Graham Greene. Figurou em vários jornais do seu tempo como colunista de cultura. Sua atividade com a literatura inclui a escrita de livros para crianças e de poesia, gênero no qual ficou reconhecido pela publicação de vasta obra, das quais se destacam títulos como: A rua dos cataventos (1940), Caderno H (1973), A vaca e o hipogrifo (1977) e Baú de espantos (1986). Morreu a 5 de maio de 1994, em Porto Alegre. 


* “Canção do primeiro ano” foi descoberto por George Augusto, livreiro de Porto Alegre. O manuscrito estava dentro de um livro do poeta adquirido de uma coleção particular (Fonte: G1)

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Dois poemas de Boris Rýji

 


POR UMA PATACA, CIGANA, ADIVINHA
 
– Por uma pataca, cigana, adivinha,
Do que vou morrer, vai a fundo.
Responde a cigana o seguinte, não vive
quem é como tu neste mundo.
 
O filho vira outro, outra vira a mulher
se torna inimigo o amigo.
Que vai te matar? Esta culpa. Porém
cuide da sua culpa consigo.
 
Ante quem a culpa? Ante o estar vivo
E sorri, nos olhos encara.
A gangue na feira ressoa o motivo,
os céus vão ficando mais claros.
 
 
VAI OBTER UM EUROPEIZADO TOQUE

Vai obter um europeizado toque
a voz do transasiático poeta
esquecerei a fantástica Sverdlovsk
o pátio escolar de Vtorchermet

Mas onde quer que duro e frio eu caia
na fogosa Paris, úmida Londres,
enterrem minhas cinzas miseráveis
num cemitério de Sverdlovsk sem nome.

Nem é no plano do que é belo e falso,
mas pose artística e espalhafatosa,
porque é lá que estão os meus chegados
e os seus perfis em mármore e em rosas.
 
‘tão nos vitríolos de neve azuis
os que trupicaram, os ruins de nota,
com cobre em tartarugas como os
primeiros soldados da Perestroika.

Que a chaminé de Vtorchermet apite,
que a Plastpolimer assobie largo.
Uma mulher, que não estava comigo,
vai abrir o álbum e fumar com garbo.

Ela abrirá o álbum azul no qual o
futuro nossas faces acalenta,
onde éramos vivos, no azul do álbum.
Ralé local: bandidos e poetas.
 
•
Boris Rýji nasceu em 1974 na cidade de Chelyabinsk, Rússia. Ainda na sua infância muda-se com a família para Sverdlovsk (atual Ecaterimburgo, desde o fim da União Soviética). Formado em Geologia na Universidade dos Urais, sua dedicação à poesia o fez, desde cedo, reconhecido entre os mais importantes nomes da sua geração aquando recebe o prêmio Antibook. Com o seu livro Opravdaniye zhizni ainda recebe, postumamente o prêmio Palmira do Norte (São Petersburgo), um dos mais cobiçados entre os poetas. Rýji morreu a 7 maio de 2001.
 
* Traduções Astier Basilio com consultoria de Rafael Frate. Os poemas estão publicados na edição 253, janeiro de 2022, da revista Continente, p.79.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Três poemas de Eunice Arruda




OLHE
 
O mundo é escrito
a portas
fechadas
 
Pequenas aranhas sobem
por um fio quase
invisível
 
As coisas ardentes
não dizem o
nome
 
 
SUBJETIVA II

Ainda ontem plantei flores na tarde
para poder dormir
mas não quero vê-las
orvalhadas ou murchas
 
Tenho dó das mãos que sabem
florir canteiros e
cobrir-se de
outono
 
 
GABRIEL

Cuidando da imortalidade
um poeta esquece a
vida
 
Come o pão
                      amanhã
 
Cerzindo as roupas claras
se veste de luto
pela casa
pobre cuidando: um poeta
De sonhos é que é
corrompido
um dia será lido
 
•
Eunice Arruda nasceu em Santa Rita do Passa Quatro, em 1939. Formada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mesma instituição onde se especializou em Comunicação e Semiótica, sua estreia na literatura acontece em 1960 com É tempo de noite. Depois deste livro veio mais de uma dezena de títulos, tais como Gabriel (1990) e Debaixo do sol (2010). Toda sua obra poética foi reunida em Visível ao destino (2019). Eunice Arruda morreu em São Paulo, em 2017.
 
 

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Três poemas de César Vallejo




ÁGAPE
 
Hoje ninguém veio perguntar alguma coisa;
nem nesta tarde ninguém me pediu nada.
 
Não vi sequer uma flor de cemitério
em tão alegre procissão de luzes.
Perdoa-me Senhor: morri tão pouco!
 
Nesta tarde todos, todos passam
sem nada me perguntar nem pedir nada.
 
E não sei o que esquecem e que fica
em minhas mãos tão mal, qual coisa alheia.
 
Saí até à porta,
tenho vontade de gritar a todos:
Se alguma coisa lhes falta, ela está aqui!
 
Porque em todas as tardes desta vida,
não sei que portas nos atiram na cara
e algo estranho se apodera da minha alma.
 
Não veio ninguém hoje;
e que pouco hoje nesta tarde morri!
 
 
XLIV
 
Este piano viaja para dentro,
viaja saltando alegremente.
Medita depois num repouso ferrado,
cravado com dez horizontes.
 
Avança. Sob túneis, arrasta-se,
mais adiante, sob túneis de dor,
sob vértebras que naturalmente fogem.
 
Outras vezes as suas trompas movem-se,
lentas ásias amarelas de viver,
movem-se como eclipse,
e catam em si pesadelos de insectos,
mortas já para o trovão, mensageiro dos génesis.
 
Piano escuro, a quem espias tu
com a tua surdez que me ouve,
com a tua mudez que me ensurdece?
 
Oh misteriosa pulsação.
 
 
LXI

Esta noite desço do cavalo,
diante da porta da minha casa, onde
me despedi com o cantar do galo.
Está fechada, ninguém me responde.
 
O banco em que a mamã alumiou
meu irmão mais velho, para ele selar
cavalos que eu já montara em pelo,
menino rude, por ruas e valados.
O banco em que deixei murchar ao sol
minha angustiada infância… E o luto
que emoldura esta porta?
 
Deus, na paz forasteira,
espirra, o bruto, como a chamar também;
fareja, batendo no empedrado. Depois, duvida, relincha
sacode a viva orelha.
 
O papá há-de estar acordado a rezar,
talvez pense que se fez tarde para mim.
Minhas irmãs, cantarolando as ilusões
singelas, buliçosas,
a trabalhar para a festa que aí vem,
não falta quase nada.
Espero, espero, o coração
um ovo em seu momento, que se fecha.
 
Numerosa família que deixamos
há pouco, ninguém hoje em vigília, e nem uma vela
pôs no altar para que voltássemos.
Chamo de novo, e nada.
Calamo-nos, rompemos em soluços e o cavalo
relincha, relincha mais ainda.
 
Todos estão a dormir para sempre,
e antes assim, que finalmente
meu cavalo põe-se a cabecear, cansado,
e, entre sonhos, a cada vénia, diz
que está bem, que está tudo muito bem.
 
 
•
César Vallejo nasceu em Santiago de Chuco, a 16 de março de 1892. Integrado às vanguardas do século XX, é considerado um dos mais importantes poetas hispano-americanos. O peruano começa sua vida literária com Los heraldos negros (1918) e na poesia publica ainda Trilce (1922) e Poemas humanos (1939). Também escreveu romance, conto, crônica, ensaio e teatro. Morreu em Paris no dia 15 de abril de 1938. 

* Traduções de José Bento