terça-feira, 5 de novembro de 2024

Dois poemas de Conceição Lima




Esta viagem

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

Trespassei o aço das certezas.
Heranças, devorei-as.

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia
Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

Ao encontro da linguagem da tribo azul
cada passo me afasta de um rio sagrado.

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:
a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.


Antes do poema 

Súbito chegaste 
quando falsos deuses subornavam 
o tempo. 
Chegaste para despedir 
a insónia e o frio 
Chegaste sem aviso 
quando a estrada se abria 
como um rio 
Chegaste para resgatar 
sem demora o princípio 

Grave o silêncio rodeia o teu corpo h
ostil o silêncio agarra teu corpo 
Mas já tomaste horas e caminhos 
já venceste matos e abismos 
já a espessura do obô 
resplandece em tua testa. 

E não bastam pombas em demência 
no teu rosto 
Não bastam consciências soluçantes 
em teu rasto 
não basta o delírio das lágrimas libertas. 

Eu cantarei em pranto 
teu regresso sem idade 
teu retorno do exílio na saudade 
cantarei sobre a terra 
teu destino de rebelde 

Para te saudar no mar e no palmar 
na manhã do canto sem represas 
cantarei a praia lisa e o pomar. 

Direi teu nome e tu serás.

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