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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Álvaro Mutis



A MORTE

Não inventemos suas águas. Nem intentemos inabilmente adivinhar seus veios deliciosos, seus escondidos remansos. Não adianta intimidades com ela. Devolvâmo-la à sua antiga e verdadeira presença. Venerêmo-la com as preces de outrora e tornarão a conhecer-se suas intrincadas rotas, voltará a encantar-nos sua espessa maranha de cidades cegas onde o silêncio derrama sua líquida essência. As grandes aves regressarão a presidir sobre nossas cabeças e suas sombras fugazes apagarão suavemente nossos olhos. Desnudo o rosto, cingida a pele aos ossos fundamentais que sustentaram as feições, a confiança na morte volverá para alegrar nossos dias.


AS VIAGENS

É preciso lançar-nos à descoberta de novas cidades. Generosas raças nos esperam. Os pigmeus meticulosos. Os sebentos e imberbes índios da selva, assexuados e lisos como as serpentes dos pântanos. Os habitantes das mais altas mesetas do mundo, assombrados ante o tremor das neves. Os frágeis habitantes das geladas extensões. Os condutores de rebanhos. Os que há séculos vivem na metade do mar e que ninguém conhece porque viajam sempre em direção contrária à nossa. Deles depende a última gota de esplendor. 
Ainda estão por descobrir importantes regiões da terra: os grandes tubos por onde respira o oceano, as praias onde morrem os rios que não têm destino, os bosques onde nasce a madeira de que é feita a garganta dos grilos, o lugar onde vão morrer as borboletas escuras, de grandes asas lanudas, com o acre matiz da erva seca do pecado.
Buscar e inventar de novo. Ainda é tempo. Bem pouco, é verdade, mas é preciso aproveitá-lo.


O DESEJO

Temos que inventar uma nova solidão para o desejo. Uma enorme solidão de estreitas margens onde se espalhe à vontade o rouco estrépito do desejo. Abramos, novamente, todas as veias do prazer. Que jorrem seus altos esguichos não importa aonde. Nada foi feito ainda. Mal tínhamos começado a andar quando alguém parou para arranjar-se as vestes e todos paramos juntos. Sigamos a marcha. Há leitos secos por onde ainda podem viajar águas magníficas.
Recordai os animais de que falávamos. Podem ajudar-nos antes que seja tarde e volte a charanga a enturvar o céu com sua música estridente. 


CADA POEMA

Cada poema um pássaro que foge
da região marcada pela praga.
Cada poema uma roupagem de morte
pelas ruas e praças inundadas
na cera mortuária dos vencidos.
Cada poema um passo para a morte,
uma falsa moeda de resgate,
tiro certeiro no meio da noite
perfurando as pontes sobre o rio
cujas águas dormidas perambulam
dos velhos bairros para as cercanias
onde o dia prepara suas fogueiras.
Cada poema um rígido contato
do que repousa na pedra dos morgues,
ávido anzol que sôfrego percorre
o liso limo das frias sepulturas.
Cada poema um náufrago desejo,
ranger de mastros, estalar de enxárcias
no rude andaime que sustenta a vida.
Cada poema um o estrondo do derrame,
sobre o gelado ronco do oceano,
da branca estrutura do velame.
Cada poema invadindo e esgarçando
a triste teia de aranha do tédio.
Cada poema, de um cego sentinela,
o santo e senha de sua desventura
num grito à noite escura e sem resposta.
Água de sonho, nascente de cinza,
pedra porosa de entre matadouros,
tronco encoberto pelas sempre-vivas,
metal que dobra pelos condenados,
óleo de extrema-unção de duplo gume, 
sudário cotidiano do poeta,
cada poema esparge sobre o mundo
a amarga semente da agonia.

Álvaro Mutis nasceu em Bogotá em 1923. Apenas dois anos depois, a família mudou-se para Bruxelas, onde fez toda suas primeiras letras, educando-se em francês. O retorno para a Colômbia acontece em 1939 e em 1942 começa a trabalhar no rádio, passando para o periódico Vida como chefe de redação. Sua estreia na literatura é com La balanza, livro publicado com Carlos Patiño, em 1948. Quatro anos a seguir, sai Los elementos del desastre, ocasião quando já atuava na publicidade, mais tarde nas relações públicas, funções que o levaram a ir viver no México. Antes da prisão de um ano e meio, ainda publicou Reseña de los hospitales de ultramar e na saída do cárcere havia escrito Cuatro relatos, Los trabajos perdidos e Diario de Lecumberri. A vida dedicada à poesia só o alcançaria depois de viajar a América Latina como funcionário de distribuidoras estadunidenses para a venda séries televisivas. Alguns dos vários reconhecimentos recebidos por sua obra foram os prêmios Príncipe de Astúrias e Rainha Sofía de Poesia. Álvaro Mutis morreu na Cidade do México em 2013.


* Traduções de Geraldo Holanda Cavalcanti   

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dois poemas de Álvaro Mutis


Da cidade

Quem vê à entrada da cidade
o sangue vertido por antigos guerreiros?
Quem ouve o golpe das armas
e o chuvisco noturno das mulas?
Quem guia a coluna de fumaça e dor
que as batalhas deixam ao cair da tarde?
Nem o mais miserável, nem o mais vicioso
nem o mais débil e esquecido dos habitantes
recorda algo desta história.
Hoje, quando o amanhecer cresce nos parques
o odor dos pinheiros recém cortados,
esse aroma resinoso e brilhante
como a lembrança vaga da fêmea magnífica
ou como a dor de uma besta indefesa,
hoje, a cidade se entrega inteiramente
a sua névoa suja e a seus ruídos cotidianos.
E, no entanto o mito está presente,
subsiste nos cantos onde os mendigos
inventam uma trêmula cadeia de prazer,
nos altares que a traça corrói
e cobre de pó com manso e terso olvido,
nas portas que se abrem de repente
para mostrar ao sol um opulento torso
de mulher que desperta entre laranjeiras
- branda fruta morta, ar vão de alcova –.
Na paz do meio-dia, nas horas do alvorecer,
nos trens sonolentos carregados de animais
que choram a ausência de suas crias,
ali está o mito perdido, irresgatável, estéril.


Estela para Arthur Rimbaud

Senhor das arenas
recorres teus domínios
e desde o mirante
da mais alta torre
partem tuas ordens
que vão diluir-se
no vazio surdo
do estuário.
Senhor das armas
ilusórias, há tempos
que o olvido trabalha
teus poderes,
que teu nome, teu reino,
a torre, o estuário,
as arenas e as armas
se apagaram para sempre
do já roto tapete
que as narrava.
Não agites mais
teus corroídos estandartes.
Na quietude, no silêncio,
hás de penetrar
abandonado

as tramas funerais.

Álvaro Mutis nasceu em Bogotá em 1923. Apenas dois anos depois, a família mudou-se para Bruxelas, onde fez toda suas primeiras letras, educando-se em francês. O retorno para a Colômbia acontece em 1939 e em 1942 começa a trabalhar no rádio, passando para o periódico Vida como chefe de redação. Sua estreia na literatura é com La balanza, livro publicado com Carlos Patiño, em 1948. Quatro anos a seguir, sai Los elementos del desastre, ocasião quando já atuava na publicidade, mais tarde nas relações públicas, funções que o levaram a ir viver no México. Antes da prisão de um ano e meio, ainda publicou Reseña de los hospitales de ultramar e na saída do cárcere havia escrito Cuatro relatosLos trabajos perdidos e Diario de Lecumberri. A vida dedicada à poesia só o alcançaria depois de viajar a América Latina como funcionário de distribuidoras estadunidenses para a venda séries televisivas. Alguns dos vários reconhecimentos recebidos por sua obra foram os prêmios Príncipe de Astúrias e Rainha Sofía de Poesia. Álvaro Mutis morreu na Cidade do México em 2013.

* Traduções de Antonio Miranda.