Mostrando postagens com marcador Zila Mamede. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Zila Mamede. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Quatro poemas de "O arado", de Zila Mamede



ARADO

Arado cultivadeira
rompe veios, morde chão
Ai uns olhos afiados
rasgando meu coração.

Arado dentes enxadas
lavancando capoeiras
Mil prometimentos, juras
faladas, reverdadeiras?

Arado ara picoteira
sega relha amanhamento,
me desata desse amor
ternura torturamento.


BANHO (RURAL)

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando;
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era que a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.


BOIS DORMINDO (I)

a Tomé Filgueira


A paz dos bois dormindo era tamanha
(mas grave era a tristeza de seu sono)
e tanto era o silêncio da campina
que se ouviam nascer as açucenas.

No sono dos bois seguiam tangerinos
que abandonando relhos e cichotes
tangiam-nos serenos com as cantigas
aboiadeiras e um bastão de lírios.

Os bois assim dormindo caminhavam
destino não de bois mas de meninos
libertos que vadiassem chão de feno;

e ausentes de limites e porteiras
arquitetassem sonhos (sem currais)
nessa paz outonal de bois dormindo.


BOIS DORMINDO (II)

Os bois dormem ainda. Já cansaram
de ver que o chão em pasto não rebenta.
Do sono é que lhes vem o encantamento
pois nele o verde verdinovoaponta.

Eles abrigam (quando adormecidos)
nos olhos, o rumor, a nostalgia
das noites invernais, as correntezas
onde iam beber água de manhã;

o cheiro dos estrumes que largavam
pelas queimadas, quando rasteavam
trilha tapera transbordando chuvas

de maio. São os bois. Não os despertem.
No sono seu ruminam madrugadas
que a terra seca não lhes pode dar.



Zila Mamede nasceu em Nova Palmeira, no estado da Paraíba, em 15 de setembro de 1928. Aos cinco anos mudou-se com a família para o Rio Grande do Norte. Como técnica em contabilidade exerceu suas primeiras atividades nessa profissão enquanto se dedicava aos interesses pelas letras. No âmbito da chamada Geração Pós-45, Zila iniciou sua produção poética com a publicação de Rosa de pedra, em 1953. Formou-se em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional com bolsa de estudos conseguida por intermédio de Manuel Bandeira; no retorno a Natal, criou o sistema de bibliotecas do estado. Especializou-se em administração de bibliotecas nos Estados Unidos. Paralelo à profissão, publicou Salinas, em 1958, e O arado, no ano seguinte. Dedicou-se a estudar a obra de Luís da Câmara Cascudo e em 1970 publicou Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual (1918-1968); seguiu-se com o estudo sobre a obra de João Cabral de Melo Neto entre 1976 e 1985, trabalho que levou até os seus últimos dias; o resultado está em Civil geometria: bibliografia crítica, analítica e anotada de João Cabral de Melo Neto (1942-1982). Publicou, ainda em poesia Exercício da palavra (1975), Corpo a corpo (1978), Navegos (1978) e A herança (1984). Morreu em 13 de dezembro de 1985.


domingo, 11 de maio de 2014

Poemas para o Dia das Mães

Maternidade. José de Almada Negreiros


minha mãe dizia

ferve, água!
frita, ovo!
pinga, pia!

e tudo obedecia

(Paulo Leminski)


PARA SEMPRE

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

(Carlos Drummond de Andrade)


MINHA MÃE

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

(Vinicius de Moraes)


MÃE

A mulher fia o filho.
No silêncio do corpo
inaugura-se: mãe.
O ventre: curvatura de sol
levantando-se
em mansidão de horizonte.
De si própria se esquece:
tecelã da rosa que já aflora
em crescimento lento
no seu sangue.

(Zila Mamede)


MÃE

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

(Mário Quintana)


MATER

Para Raimunda Salgado

De ti não há sequer
um álbum de família:
retratos da infância
nos campos de arroz e gergelim.

Talvez reste em pensamento
pedaços de tua voz
no vento
como impressões digitais
num rio.

No dia em que o azul
roubou teus olhos
e o silêncio rival rasgou
teu nome,
cotovias cantaram no meu rastro.
no dia em que a manhã
cerrou teus olhos.

Sem ti
sou a flor da árvore
desolada. Agora
o mar bate em minhas rochas
e a noite ronda meus calcanhares.

(Salgado Maranhão)


MÃE!

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
  
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
  
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
  
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!
  
(Almada Negreiros)


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Dois sonetos de Zila Mamede

A poeta Zila Mamede.


Mar morto

Parado morto mar de minha infância
sem sombras nem lembranças de sargaços
por onde rocem asas de gaivotas
perdendo-se num rumo duvidoso.

Pesado mar sem gesto, mar sem ânsia,
sem praias, sem limites, sem espaços,
sem brisas, sem cantigas, mar sem rotas,
apenas mar incerto, mar brumoso.

Criança penetrando no mar morto
em busca de um brinquedo colorido
que julga ver no mar vogando.

Infância nesse mar que não tem porto,
num mar sem brilho, vago, indefinido,
onde não há nem sonhos navegando.


Frustração

O poeta, em verde sonho desposado
perdeu-se na fumaça, descontente.
Onde o gesto, onde a musa permanente
fincou raiz? em solo devastado?

Palavras. Só palavras. Concentrado
o pensamento voga, de repente,
por mares de salina, indiferente
ao poeta, àquele sonho evaporado.

Fantasmas de mil coisas na retina:
um grito azul - nas sombras da neblina,
inconsequente flor a soluçar.

Em vestes de loucura embevecida,
o poeta, a muda face desprendida,
o morto sonho verde atira ao mar.

Zila Mamede nasceu em Nova Palmeira, no estado da Paraíba, em 15 de setembro de 1928. Aos cinco anos mudou-se com a família para o Rio Grande do Norte. Como técnica em contabilidade exerceu suas primeiras atividades nessa profissão enquanto se dedicava aos interesses pelas letras. No âmbito da chamada Geração Pós-45, Zila iniciou sua produção poética com a publicação de Rosa de pedra, em 1953. Formou-se em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional com bolsa de estudos conseguida por intermédio de Manuel Bandeira; no retorno a Natal, criou o sistema de bibliotecas do estado. Especializou-se em administração de bibliotecas nos Estados Unidos. Paralelo à profissão, publicou Salinas, em 1958, e O arado, no ano seguinte. Dedicou-se a estudar a obra de Luís da Câmara Cascudo e em 1970 publicou Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual (1918-1968); seguiu-se com o estudo sobre a obra de João Cabral de Melo Neto entre 1976 e 1985, trabalho que levou até os seus últimos dias; o resultado está em Civil geometria: bibliografia crítica, analítica e anotada de João Cabral de Melo Neto (1942-1982). Publicou, ainda em poesia Exercício da palavra (1975), Corpo a corpo (1978), Navegos (1978) e A herança (1984). Morreu em 13 de dezembro de 1985.