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terça-feira, 28 de abril de 2020

Três poemas de Umberto Saba


O LUGAR

Perambulamos toda a tarde em busca
de onde fazer de duas vidas uma.

Ruidosa, a vida adulta; e hostil
ameaçava a nossa juventude.

Mas aqui ainda cantam grilos,
quanto silêncio sob esta lua.


SÓ

Estou só. Ninguém nem escuta onde
aos amigos dispersos todo apelo
é vão.
O ódio rebrilha como gelo, e penso
que esta noite te verei, meu amor.

Penso o quanto, no sol
que ressalta, na sombra que esconde,
fiz, errei, dizendo-me em paz algumas
palavras.


NOITE DE FEVEREIRO

A lua desponta.
                               Na avenida é dia
ainda, uma noite rápido cai.
Indiferente juventude reúne-se;
debanda em buscas vãs;
                                               e o pensamento
da morte é que, enfim, ajuda a viver.

•
Umberto Saba nasceu em Trieste a 9 de março de 1883. Escreveu prosa, sobretudo romances, e poesia, matéria centrada, como destaca a crítica, na busca persistente de uma perfeição e coerência formais com que cobrir a aspereza do vivido do sentido. Morreu no dia 25 de agosto de 1957 em Gorizia. 

* Traduções de Júlio Castañon Guimarães. Os poemas foram publicados inicialmente na revista Sibila.  

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Dois poemas de Umberto Saba



ULISSES

Na minha juventude naveguei
ao longo das costas da Dalmácia. Ilhéus
à flor das ondas emergiam, onde raro
uma ave buscava a sua presa,
cobertos de algas, escorregadios, ao sol
belos como esmeraldas. Quando a noite
e a maré alta os ocultavam, as velas
sob o vento o largo demandavam,
para fugir da cilada. Hoje o meu reino
é essa terra de ninguém. No porto
acendem-se as luzes para outros; a mim para o alto mar
me leva ainda o não domado espírito,
e da vida o doloroso amor.


MELRO

Existia aquele mundo ao qual em sonhos
regresso ainda; que em sonhos me abala?
Claro que existia. E uma boa parte dele eram
minha mãe e um melro.

A ela mal a vejo. Mais o negro ressalta
e o amarelo de quem ledo me saudava
com seu canto (era isto o que pensava)
a mim que o ouvia da rua. Minha mãe
sentava-se, estafada, na cozinha. Cortava
só para ele (era isto o que pensava)
e para o meu jantar a carne. Nada
que visse ou que ouvisse tanto o excitava.

Entre uma criança engaiolada e um insectívoro,
que os pequenos vermes arrancava à sua mão,
naquela casa, nesse mundo de então,
havia um amor. Havia também um equívoco.

•
Umberto Saba nasceu em Triste a 9 de março de 1883. Escreveu prosa, sobretudo romances, e poesia, matéria centrada, como destaca a crítica, na busca persistente de uma perfeição e coerência formais com que cobrir a aspereza do vivido do sentido. Morreu no dia 25 de agosto de 1957 em Gorizia. 

* Tradução de José Manuel de Vasconcelos