OUTONO
O Outono é um hospital. De cada
canto, em cada
ser, observo um sintoma apático, doentio,
A Natureza sofre e varia, enfermada,
pelas febres de luz apanhadas no Estio.
Na alma das coisas passa a outra
visão do Nada;
amputa-se o Desejo a segure do Frio...
No enlevo da esperança extrema, ajoelhada,
a vida orando aos céus evoca o sol sadio.
Numa tuberculose, as árvores,
chorando,
cospem na terra escura as amarelas folhas
e, no silêncio vão gemendo e cochilando...
E, como alívio ao mal que em seus pulmões
atua,
aquietam-se, a dormir, em mórbidas encolhas
ao clorofórmio etéreo e gélido da Lua.
ser, observo um sintoma apático, doentio,
A Natureza sofre e varia, enfermada,
pelas febres de luz apanhadas no Estio.
amputa-se o Desejo a segure do Frio...
No enlevo da esperança extrema, ajoelhada,
a vida orando aos céus evoca o sol sadio.
cospem na terra escura as amarelas folhas
e, no silêncio vão gemendo e cochilando...
aquietam-se, a dormir, em mórbidas encolhas
ao clorofórmio etéreo e gélido da Lua.
SERENATA
O éter do luar a terra adormeceu... A esta hora
o silêncio suplica as vozes de quem ama...
Vem a mim, meu Amor! Cada estrela te chama
e aguardam tua sombra as sombras, cá por fora.
A insônia da paixão me alucina e devora,
e aguardam tua sombra as sombras, cá por fora.
A insônia da paixão me alucina e devora,
arde-me todo o sangue... o peito se me inflama,
o calor do teu corpo o meu corpo reclama,
como reclama a Noite o almo fulgor da Aurora!
Oh! vem, não tardes mais! Quero sentir-te nua
Oh! vem, não tardes mais! Quero sentir-te nua
conforme no ar, soltando as tranças luminosas,
assoma o corpo branco e histérico da Lua!
Dá-me o sensual prazer dos teus virgens desejos,
Dá-me o sensual prazer dos teus virgens desejos,
e terás, ao perfume embriagador das rosas,
o inédito sabor da febre dos meus beijos!
DE 1908 PARA 1909
Qual um tísico, assim, que as ilusões
primeiras,
fanadas ilusões, num sonho, as tem fugindo,
à meia-noite ouvi, desse ano velho e findo,
soluçar meu relógio as horas derradeiras.
E eu sempre o escutei, manhãs,
tardes inteiras,
calmo, no seu tic-tac, o tempo dividindo,
por ouvi-lo em tal noite, estremeci, sentindo,
como que um choro atroz de doze carpideiras...
Então, saudoso e absorto, entre
sombras e fraguas,
a rede da Lembrança abri sobre o Passado
e colhi pelo escuro as falecidas mágoas.
Ah! e o relógio embora ouvisse
tantas vezes,
jamais tão triste o ouvi bater, lento e magoado,
no extremo funeral dos Dias e dos Meses.
fanadas ilusões, num sonho, as tem fugindo,
à meia-noite ouvi, desse ano velho e findo,
soluçar meu relógio as horas derradeiras.
calmo, no seu tic-tac, o tempo dividindo,
por ouvi-lo em tal noite, estremeci, sentindo,
como que um choro atroz de doze carpideiras...
a rede da Lembrança abri sobre o Passado
e colhi pelo escuro as falecidas mágoas.
jamais tão triste o ouvi bater, lento e magoado,
no extremo funeral dos Dias e dos Meses.
*
Num estreito caixão feito de pinho
a Morte encerrará meu grande ideal;
na curva extrema do fatal caminho
descansarei a velha cruz do Mal.
A Morte encerrará meu grande ideal
da terra escura na sombria furna;
descansarei a velha cruz do Mal
na pausa eterna da solidão noturna.
Da terra escura na sombria furna
os Sete-Palmos deverei descer...
os Sete-Palmos deverei descer...
na pausa eterna da solidão noturna
não mais teus olhos poderão me ver.
Os Sete-Palmos deverei descer
da terra escada, tenebrosa e fria;
não mais teus olhos poderão me ver
na paz da Morte, intérmina e sombria.
Da terra escada, tenebrosa e fria,
rolarão os degraus meus lentos ais...
na paz da Morte, intérmina e sombria,
serei feliz porque não sofro mais.
•
Rodolfo de Melo Machado nasceu a
28 de fevereiro de 1884, no Rio de Janeiro, cidade onde viveu até 14 de
dezembro de 1923. Foi jornalista, contista, crítico e poeta. Sua poesia se
situa na segunda geração simbolista.
