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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Dois poemas inéditos de Julio Cortázar encontrados entre anotações de sua biblioteca



CLANDESTINO

A canção era assobiada pelo marinheiro na proa
e do vento passou aos lábios do grumete na despensa
repetindo-se, mais aguda, até o poente onde uma passageira
a reteve entre os dedos como um vilão,
deixando-a flutuar, titubeante,
em busca de alguém que soubera alçá-la do silêncio que espreitava.

Fui eu quem veio salvá-la do lago em que se afogava
e a deixei seguir até o tripulante de boina azul
que agarrado a um mastro jogava ao urso;
através dele nasceu outra vez, grave e segura,
e já nada deteve sua ronda até à popa
onde um marinheiro de rosto adormecido a susteve um segundo.

(Ai, ai,
ai, ai,
canta e não chores)

E a deixou partir, última bolha misturando-se ao pavão furioso da estrela.

Provence, 18/10/57

* Poema encontrado na última página da edição de Mimesis, de Eric Auerbach, publicada em 1950 pelo Fundo de Cultura Econômica.


MENSAGEM A UMA RAINHA

Majestade: mãos numerosas passeiam
Ao redor de teu esplêndido palácio
Alimentando-se de palavras
E cornucópias de onde saem leis mastigáveis
E fitas amarelas
Tudo está tão velho quando nasce!
Por quem és rainha, por quem jogas
Ao soltar o macramé de um tempo pegajoso
Enquanto te pintam unha a unha as cutículas
E os mendigos, em ação de graças,
Enchem um chapéu de retalhos manchados
Que o camareiro te trará entre reverências
Sob a forma de um Te amamos, Rainha,
Que vivas muitos Anos, hurra hurra

* Poema encontrado na última página de um folheto de Claude-Edmonde Magny.


Julio Cortázar nasceu a 26 de agosto de 1914 em Ixelles, na Bélgica. Sua obra, uma das mais importantes no âmbito da literatura latino-americana, se destaca pela inovação criativa e formal no trato narrativo. Ficou reconhecido pela publicação de vários títulos em prosa curta, como Histórias de cronópios e famas (1964). Seu livro mais lembrado é Rayuela (1963). Vez ou outra, se aventurou na poesia, gênero, aliás, que marcou sua estreia em livro na literatura: em 1938, sob o pseudônimo de Julio Denis publicou um livro de sonetos intitulado Presencia; quase quatro décadas mais tarde, em 1971, publica Pameos y meopas e, em 1984, Salvo el crepúsculo. Cortázar morreu em Paris, onde viveu extensa parte de sua vida, a 12 de fevereiro de 1984. 

** Traduções de Pedro Fernandes.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Julio Cortázar poeta: dois inéditos



AVÓ MORTA
O anjinho que tantos anos desenhei ao pé de umas cartas,
e o à bientôt das despedidas, e esse nome sobre
hão de seguir em alguma parte, hão de ser algo vivo,
não é possível que nada sobreviva dessa ternura e essa graça.
De alguma maneira nos seguiremos escrevendo sempre,
alguém chamará às portas e nos entregará as cartas,
tu estarás bem e eu te contarei sobre viagens,
tu estarás bem e eu serei o que beija
a borda do papel onde uma letra fina
me envolve o coração em savanas, me dá boas noites
e sai silenciosa para que chegue o sonho.


OBJETOS PERDIDOS
Por veredas de sonho e moradias silenciosas
teus verões prestados me alucinam com seus cantos
Uma cifra vigilante e sigilosa
vai pelos arrabaldes chamando-me e chamando-me
mas o que falta, diz-me, no cartão pequeno
onde estão teu nome, tua rua e teu desvelo
se a cifra se mescla com as letras do sonho,

se somente estás onde já não te busco.



Julio Cortázar nasceu a 26 de agosto de 1914 em Ixelles, na Bélgica. Sua obra, uma das mais importantes no âmbito da literatura latino-americana, se destaca pela inovação criativa e formal no trato narrativo. Ficou reconhecido pela publicação de vários títulos em prosa curta, como Histórias de cronópios e famas (1964). Seu livro mais lembrado é Rayuela (1963). Vez ou outra, se aventurou na poesia, gênero, aliás, que marcou sua estreia em livro na literatura: em 1938, sob o pseudônimo de Julio Denis publicou um livro de sonetos intitulado Presencia; quase quatro décadas mais tarde, em 1971, publica Pameos y meopas e, em 1984, Salvo el crepúsculo. Cortázar morreu em Paris, onde viveu extensa parte de sua vida, a 12 de fevereiro de 1984. 

* Os dois poemas foram publicados na edição ainda inédita no Brasil, Cortázar de la A a la Z e foram traduzidos por Pedro Fernandes.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O cronópio que (também) era poeta



Os amantes

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?  
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.

Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos. 


Os deuses

Os deuses caminham entre coisas pisoteadas, segurando
as pontas dos seus mantos com gesto de asco.
Entre gatos podres, entre larvas abertas e acordeões,
sentindo nas sandálias a umidade dos farrapos corrompidos,
os vômitos do tempo.

Em seu céu despido já não moram, lançados
fora de si por uma dor, um sonho turvo,
estão feridos de pesadelo e lama, parando
para recontar seus mortos, as nuvens ao contrário,
os cães de língua quebrada,

a espreitar invejosos o abismo
onde ratos eretos disputam chiando
pedaços de bandeiras.


Viagem infinita

para quem com seu incêndio te ilumina,
cósmico caracol de azul sonoro,
branco que vibra um címbalo de ouro,
último trecho da lâmina fina.

a mão que te busca na penumbra
se detém na tépida encruzilhada
onde musgo e coral guardam a entrada
e um rio de pirilampos te alumbra,

sim, portulano, da esmeralda o fulgor,
sirte e fanal nua mesma bandeja
quando a boca navegante beija
a poça mais profunda do teu dorso,

suave canibalismo que devora
sua presa que o dança no abismo ermo,
oh, labirinto exato de si mesmo
onde o pavor das delícias mora

água para a sede de quem te viaja
enquanto a luz que junto ao leito vela
desce às tuas coxas sua úmida gazela
e por fim a trêmula flor escacha