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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Dois poemas de Jorge Luis Borges


ARTE POÉTICA

Fitar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

No dia ou no ano ver um símbolo
Dos dias de um homem e de seus anos,
Transformar o ultraje desses anos
Em música, em rumor e em símbolo,

Na morte ver o sonho, ver no ocaso
Um triste ouro, tal é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes pelas tardes certo rosto
Contempla-nos do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.


A CHUVA

A tarde se aclarou de inesperado
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que sem dúvida ocorre no passado.

Esta chuva que agora ofusca os vidros
Vai alegrar em subúrbios perdidos
As pretas uvas de uma parra no horto

Que deixou de existir. Esta molhada
Tarde me traz a voz, a voz ansiada,
De meu pai que retorna e não está morto.

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires a 24 de agosto de 1899. Escreveu prosa (contos e ensaios) e poesia, gênero pelo qual sempre gostaria de ser reconhecido. Dentre suas principais obras, destacam-se Ficções (1944), O Aleph (1949); na poesia é o autor de títulos como Fervor de Buenos Aires (1923), O fazedor (1960), O outro, o mesmo (1969), Elogio da sombra (1969), Os conjurados (1985). Morreu a 14 de junho de 1986, em Genebra.  



* Tradução Josely Vianna Baptista

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ode escrita em 1966



Ninguém é a pátria. Nem mesmo o ginete
que, alto na aurora de uma praça deserta,
leva um corcel de bronze tempo afora,
nem os outros que do mármore olham.
Nem os que sua bélica cinza espalharam
pelos campos da América
ou deixaram um verso ou uma façanha
no justo exercício dos dias.
Ninguém é a pátria. Nem mesmo os símbolos.

Ninguém é a pátria. Nem mesmo o tempo
carregado de batalhas, espadas e êxodos
e da lenta povoação de regiões
limítrofes da aurora e do ocaso,
e de rostos que vão envelhecendo
nos espelhos que se embaçam
e de sofridas agonias anônimas
que duram até a aurora
e da teia da chuva
sobre negros jardins.

A pátria, amigos, é um ato perpétuo
como o perpétuo mundo. (Se o Eterno
espectador deixasse de sonhar-nos
um só instante, nos fulminaria,
branco e brusco relâmpago, Seu olvido.)
Ninguém é a pátria, mas todos devemos
Ser dignos do antigo juramento
que prestaram aqueles cavalheiros
de ser o que ignoravam, argentinos,
de ser o que seriam pelo fato
De haver jurado nesta velha casa.

Somos o futuro desses varões,
a justificativa daqueles mortos;
nosso dever é a gloriosa carga
que a nossa sombra legam essas sombras
que devemos salvar.

Ninguém é a pátria, mas todos o somos.
Arda em meu peito e no vosso, incessante,
Esse límpido fogo misterioso.


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poema enviado pelo Jorge Elias por e-mail.

BORGES, Jorge. O outro, o mesmo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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