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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Quatro poemas de Augusto de Campos


 



Augusto de Campos nasceu a 14 de fevereiro de 1931 em São Paulo. Sua estreia na literatura acontece em 1951 com o livro O rei menos o reino. Depois forma parte com o irmão Haroldo de Campos da revista literária Noigandres, formando um grupo que, com Décio Pignatari, resultaria no movimento vanguardista Poesia Concreta. Viva vaia, seu trabalho mais conhecido, valeu o Prêmio Jabuti de 1979. Entre seus livros estão ainda Despoesia (1994) e Não (2003).

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Euclides da Cunha, o poeta segundo Augusto de Campos


Ilustração: Andrés Sandoval (detalhe)

DODECASSÍLABOS 

Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.

O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.

Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.

Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.


OS CRENTES

Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...


TOCAIA

Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
— apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.


Euclides da Cunha nasceu a 20 de janeiro de 1866, em Cantagalo. Militar e logo destacado jornalista, cobriu o desfecho do conflito de Canudos, acontecimento que favoreceu a publicação de seu principal livro, Os sertões. Além de várias outras expressões da prosa, também escreveu poesia; as peças desse último gênero foram reunidas primeiro em Ondas (1883). Em 2009 saiu uma edição organizada por Leopoldo M. Bernucci e Francisco Foot Hardman intitulada Poesia reunida. Euclides da Cunha morreu a 15 de agosto de 1909, no Rio de Janeiro.



* Os poemas aqui apresentados é uma transcrição e versificação cuidada por Augusto de Campos a partir de Os Sertões, de Euclides da Cunha.




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dois poemas do primeiro livro de Augusto de Campos




O VIVO

Não queiras ser mais vivo do que és morto.
As sempre-vivas morrem diariamente
Pisadas por teus pés enquanto nasces.
Não queiras ser mais morto do que és vivo.
As mortas-vivas rompem as mortalhas
Miram-se umas nas outras e retornam
(Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!)
Ó vivo-morto que escarnecem as paredes,
Queres ouvir e falas.
Queres morrer e dormes.
Há muito que as espadas
Te atravessando lentamente lado a lado
Partiram tua voz. Sorris
Queres morrer e morres.


CANTO DO HOMEM ENTRE PAREDES

As paredes suportam meus pulsos de carne.
As paredes se encaram.
As paredes indagam seus rostos à cal
E me riem perdido além do labirinto.
A luz sobre a cabeça, os olhos entre os dedos,
O caminho dos pés no caminho nos pés:
Entre o jarro de flores e a mesa perdido.
E as paredes são uivos mais fortes que os meus.
Fui eu quem as fechou? Se fecharam sozinhas?
Sabem que eu sei abri-las. Ignoro que sei.
Ao me sonhar caminho vi que elas e não eu,
Que tenho pés, caminham.
As estantes e os quadros se erguem já como a hera
Mais espessos que a hera.
Algo que a luz chamou poeira e eu ouro, e teias
Chamou e eu chamei rios
Acorda o compromisso entre as portas e a vida.
As paredes não param. Caminham sobre mim.
Sonham que eu hei de abri-las. Ignoro mas sei.

Augusto de Campos nasceu a 14 de fevereiro de 1931 em São Paulo. Sua estreia na literatura acontece em 1951 com o livro O rei menos o reino. Depois forma parte com o irmão Haroldo de Campos da revista literária Noigandres, formando um grupo que, com Décio Pignatari, resultaria no movimento vanguardista Poesia Concreta. Viva vaia, seu trabalho mais conhecido, valeu o Prêmio Jabuti de 1979. Entre seus livros estão ainda Despoesia (1994) e Não (2003).